Anatomia e fisiologia do sistema linfático central
O sistema linfático devolve à circulação sistêmica 2-3 L/dia de linfa em condições basais — fluxo que pode aumentar até 30 vezes em estados patológicos. O duto torácico é o coletor central: drena toda a linfa abaixo da cintura, todo o hemicórpio acima da cintura à esquerda e parte da linfa hepática/intestinal, desembocando na junção jugular-subclávia esquerda (veia braquiocefálica esquerda). A cisterna do quilo, dilatação retroperitoneal anterior a L1-L2, é o ponto inicial do duto.
- Variantes anatômicas frequentes: duto duplo (~8%), trajetos aberrantes, drenagem em veia ázigos, anastomoses linfovenosas extras
- Propulsão linfática: contração intrínseca dos linfangions + bombeamento extrínseco (movimentos respiratórios e cardíacos)
- Válvulas internas garantem fluxo centrípeto unidirecional
- Em adultos saudáveis, o duto torácico tem ≤ 5 mm de diâmetro; valores superiores são patológicos
Fisiopatologia da falha linfática no Fontan
A circulação de Fontan se caracteriza por pressão venosa central cronicamente elevada (12-15 mmHg), fluxo pulmonar não-pulsátil e ausência de bomba subpulmonar. Esses três elementos atuam simultaneamente sobre o sistema linfático:
- Aumento da produção de linfa (por desequilíbrio de Starling no leito hepático/intestinal pela congestão)
- Aumento da pós-carga linfática (a alta pressão na veia inominada dificulta o esvaziamento do duto)
- Dilatação progressiva do duto torácico e dos coletores, com incompetência valvular secundária e fluxo retrógrado para vias aberrantes (mediastino, pulmões, peritônio, duodeno)
Classificação angiográfica de Dori — perfusão linfática pulmonar
| Tipo | Padrão de DCMRL/linfangiografia | Implicação |
|---|---|---|
| Tipo 1 | Duto patente com fluxo retrógrado em 1 ramo aberrante | Mais favorável a embolização seletiva |
| Tipo 2 | Duto patente com fluxo retrógrado em múltiplos ramos | Embolização seletiva multirramos |
| Tipo 3 | Duplo duto com o esquerdo suprindo os pulmões | Embolização do duto aberrante |
| Tipo 4 | Oclusão completa do duto com fluxo retrógrado difuso pulmonar | Mais grave — pior prognóstico |
| Tipo 5 | Ausência de duto identificável com perfusão pulmonar difusa | Muito raro, pior prognóstico |
Indicações para avaliação linfática no paciente Fontan
- Quilotórax refratário pós-Fontan (incidência 9-26%; mediana de diagnóstico no POD 5)
- Enteropatia perdedora de proteínas (EPP) (5-12% pós-Fontan; cumulativa ~13% aos 10 anos)
- Bronquite plástica (4-14% pós-Fontan)
- Drenagem pleural prolongada > 14 dias (~22% dos pacientes pós-Fontan)
- Derrame pleural ou pericárdico inexplicado tardio
- Ascite quilosa ou não-quilosa (até 30% dos adultos com Fontan)
- Falha multicompartimentalizada do Fontan (combinação tórax + abdômen + tecido subcutâneo)
Avaliação por imagem — sequência diagnóstica ▼
1) RNM T2 estática (sem contraste)
- Sequências T2 fortemente ponderadas, geralmente integradas à RNM cardíaca de rotina pós-Fontan
- Identifica fluidos de movimento lento (linfa) — não-invasivo, sem radiação, sem contraste, sem sedação adicional
- Avalia: dilatação do duto torácico, colateralização linfática, congestão periporta hepática, edema mesentérico
- Classificação de Biko para anomalias linfáticas torácicas pós-Glenn/Fontan (Tipos 1-4): bilateral supraclavicular + extensão para parênquima pulmonar (Tipo 4) é preditor de falha de Fontan, transplante e óbito
2) Linfangiografia dinâmica por contraste em RNM (DCMRL)
Padrão atual para mapear o sistema linfático central e identificar vazamentos. Gadolínio macrocíclico injetado em compartimentos linfáticos distintos com aquisição time-resolved.
| Acesso | Técnica | Rendimento |
|---|---|---|
| Intranodal inguinal (IN-DCMRL) | Agulha 25G no hilo do linfonodo inguinal sob US; gadolínio 0,2 mL/kg em injeção lenta manual; dinâmica 10-15 min + sequências estáticas de alta resolução | Mapa do duto torácico e perfusão pulmonar retrógrada (classificação Dori) |
| Intra-hepática (IH-DCMRL) | Agulha 25G via ramo da veia porta sob US + confirmação fluoroscópica | Conexões hepatoduodenais (EPP), hepatopulmonares (raras), hepatoperitoneais (ascite) |
| Intramesentérica (IM-DCMRL) | Acesso a linfonodos ou ductos mesentéricos; tecnicamente exigente — sucesso ~93% | Vazamentos peritoneais e mesentéricos em EPP |
3) US com contraste (CEUS) — ferramenta complementar
- Microesferas de hexafluoreto de enxofre — seguro em pediatria
- Guia para acesso intranodal/intra-hepático, visualização da junção linfo-venosa, confirmação de patência do duto
- Pode ser feito à beira-leito, sem radiação
4) Linfangiografia fluoroscópica convencional
- Reservada a pacientes com contraindicação a RNM (marcapasso pacing-dependente, claustrofobia)
- Agulha 22G Chiba na cisterna do quilo via abordagem transabdominal; contraste iodado ou Lipiodol
- Opacificação central inferior ao DCMRL com contraste iodado
Linfangiografia diagnóstica intervencionista — sala de hemodinâmica ▼
Sequência geral do procedimento
- Anestesia geral com IOT, monitorização invasiva
- US guia para identificação de linfonodo inguinal superficial bilateral
- Punção com agulha 25G no hilo do linfonodo
- Confirmação da posição: injeção teste de pequeno volume de contraste iodado em fluoroscopia ou microbubbles em US
- Injeção lenta manual do contraste (gadolínio para DCMRL ou Lipiodol/iodado em fluoro)
- Aquisição: dinâmica e estática
- Se acesso inguinal insuficiente, considerar acesso intra-hepático ou intramesentérico
Acessos avançados
| Tipo | Indicação |
|---|---|
| Intra-hepático | Suspeita de EPP — investigar conexões hepatoduodenais; também útil em quilotórax/bronquite com perfusão pulmonar de origem hepática |
| Intramesentérico | EPP com vazamento peritoneal sem evidência hepatoduodenal clara |
Acesso ao duto torácico ▼
Modelos animais (suínos) têm sido usados para padronizar técnicas de canulação anterógrada e retrógrada (literatura 2025-2026), expandindo o uso clínico em pediatria.
Embolização linfática — princípios e técnica ▼
Embolização seletiva (técnica de Itkin) — preferida em pacientes Fontan
- Princípio: selar apenas os ramos aberrantes/fístulas, preservando a patência do duto torácico central e a drenagem linfática fisiológica
- Vantagem em Fontan: evita o risco de iniciar/agravar EPP e ascite secundária à oclusão completa do duto
- Agentes: NBCA (n-butil cianoacrilato) diluído em Lipiodol (1:1 a 1:3), micro-coils, Onyx em casos selecionados
- Técnica do segundo microcateter: em alguns serviços, posicionado no duto torácico com fluxo de glicose 5% durante a injeção do adesivo, para evitar carryover do adesivo para o duto central
- Resultado publicado (Dori et al.): 88% de melhora clínica significativa; 15/17 pacientes descontinuaram medicações respiratórias após embolização para bronquite plástica
Embolização completa do duto torácico
- Reservada a quilotórax pós-trauma cirúrgico não-Fontan
- Evitar em pacientes Fontan — risco de EPP/ascite por oclusão da drenagem central
- Agentes: coils + NBCA-Lipiodol
Embolização linfonodal com Lipiodol etiolizado
- Lipiodol injetado diretamente em linfonodo inguinal — efeito esclerosante em pequenos vasos linfáticos
- Menos invasivo, menor risco de embolia sistêmica vs Lipiodol intraductal
- Relatos de sucesso em quilotórax refratário
Manejo do quilotórax pós-Fontan
Diagnóstico
- Efusão pleural com triglicérides > 110 mg/dL em dieta plena (ou > 50 mg/dL em dieta MCT)
- Linfócitos > 80% no líquido pleural
- Quilomícrons positivos
- Tempo mediano para diagnóstico: POD 5 (3-7)
Manejo escalonado
| Fase | Conduta |
|---|---|
| Fase 1 (Dia 0-5) |
• Dieta modificada em gordura (DMG): alta proteína, baixa gordura LCT, MCT como fonte preferencial • Reposição de albumina parenteral se < 2,5 g/dL • Reposição de cálcio e imunoglobulina se déficits • Drenagem pleural com quantificação diária |
| Fase 2 (Dia 6-14) |
• Octreotida: 1-10 mcg/kg/h IV contínua (titulada) ou 5-10 mcg/kg SC 8/8h • Sildenafil em casos selecionados (vasodilatação pulmonar — reduz pós-carga linfática) • NPO + nutrição parenteral total se débito persistente alto • Avaliar cateterismo cardíaco para descartar obstruções no circuito Fontan |
| Fase 3 (Dia 15+) |
• Quilotórax persistente apesar de manejo otimizado → linfangiografia diagnóstica + embolização seletiva • Em Fontan: preferir técnica seletiva (Itkin), evitar oclusão completa do duto • Pleurodese cirúrgica como último recurso |
quilotórax pós-Fontan
Quantificar débito diário (mL/kg/dia)
Avaliar cateterismo Fontan para descartar obstruções
Reintroduzir dieta lentamente (4-6 semanas)
Retirar drenos quando possível
Classificação Dori
Preservar duto central
Seguimento ambulatorial
Considerar pleurodese cirúrgica
Avaliar candidatura a transplante
Manejo da Enteropatia Perdedora de Proteínas (EPP)
Diagnóstico
- Alfa-1-antitripsina fecal elevada (gold standard): > 54 mg/dL ou clearance 24h > 24 mL/dia
- Hipoalbuminemia, hipoproteninemia, hipogamaglobulinemia, hipocalcemia, linfopenia
- Cintilografia com Tc-99m albumina sérica marcada (alternativo)
- DCMRL: conexões hepatoduodenais com vazamento e realce da parede duodenal
- Apresentação típica: edema, ascite, derrames; mediana 5 anos pós-Fontan; 30% manifestam-se até 5 anos pós-Fontan
Manejo escalonado
| Pilar | Conduta |
|---|---|
| Hemodinâmico |
• Cateterismo cardíaco para identificar e tratar obstruções no circuito Fontan (estenose de APs, anastomoses, veias pulmonares) • Tratar obstruções com angioplastia / stent • Vasodilatadores pulmonares (sildenafil) se RVP elevada |
| Nutricional |
• Dieta MCT alta proteína • Reposição de albumina parenteral • Imunoglobulina IV (hipogamaglobulinemia) • Cálcio, ferro, vitaminas lipossolúveis (D, E, K) |
| Farmacológico |
• Budesonida controlada-release 9 mg/dia VO (ação local na mucosa intestinal, baixa absorção sistêmica) — reverte EPP em proporção variável; melhor resposta em pacientes mais jovens • Heparina não-fracionada subcutânea em alguns esquemas (reduz permeabilidade endotelial intestinal) • Sildenafil se RVP/CVP elevadas • Octreotida em casos selecionados • Espironolactona / IECA com cautela (atenção ao fluxo mesentérico) |
| Intervencionista linfático |
• Embolização seletiva de conexões hepatoduodenais identificadas no DCMRL • Acesso preferencial: intra-hepático para mapear; embolização com NBCA-Lipiodol seletivo • Preserva drenagem central — evita iatrogenia |
| Cirúrgico / avançado |
• Conversão de Fontan atriopulmonar para CCPT (mortalidade alta — apenas em refratários) • Criação de fenestração ou alargamento de fenestração pré-existente • Transplante cardíaco em EPP refratária (sobrevida imediata 88%, 10 anos 61%) |
EPP pós-Fontan
Otimizar hemodinâmica
Budesonida 9 mg/dia VO + considerar heparina/sildenafil
Seguimento periódico (alfa-1-AT fecal, albumina)
Mapear conexões hepatoduodenais e mesentéricas
Preservar duto central
Reabordagem se recidiva
Manejo da Bronquite Plástica
Diagnóstico
- Expectoração de casts (moldes brônquicos) de aspecto borrachoso — patognomônico
- Tosse crônica, sibilância, dispneia, episódios obstrutivos agudos
- Frequente diagnóstico inicial errôneo de asma ou pneumonia recorrente
- Broncoscopia visualiza casts em árvore brônquica (não detectados por radiografia)
- DCMRL: demonstra padrão de fluxo retrógrado pulmonar (Dori tipos 1-5)
Manejo escalonado
| Fase | Conduta |
|---|---|
| Tratamento sintomático |
• Broncoscopia para remoção de casts em obstrução aguda • tPA inalado (ativador do plasminogênio): reduz peso dos casts expectorados • DNase (dornase-α) e N-acetilcisteína inaladas: redução da viscosidade • Corticoide inalado • Broncodilatadores (salbutamol) • Fisioterapia respiratória intensiva |
| Otimização hemodinâmica |
• Cateterismo cardíaco para descartar obstruções no Fontan • Vasodilatadores pulmonares (sildenafil) |
| Intervencionista linfático |
• Linfangiografia diagnóstica (DCMRL intranodal) — classificação Dori • Embolização seletiva dos ramos aberrantes do duto torácico com NBCA-Lipiodol (técnica de Itkin) • Tipos Dori 1-2: melhor prognóstico para embolização • Tipos Dori 4-5: técnica mais complexa, prognóstico reservado |
bronquite plástica
(confirmar com broncoscopia se dúvida)
Broncoscopia se obstrução aguda
Fisioterapia respiratória
Vasodilatador pulmonar (sildenafil)
Seguimento próximo
Reabordagem se recidiva
Classificação Dori da perfusão pulmonar retrógrada
Preservar duto central
Seguimento
Avaliar candidatura a transplante cardíaco
Cuidados pós-procedimento
- UTI ou unidade de cuidados intermediários por 24h
- Monitorização hemodinâmica contínua (atenção a queda de SatO₂ — embolia gordurosa)
- Avaliação respiratória — CPAP/VNI se hipoxemia leve; intubação se grave
- Rx tórax + ECO em 24h
- Reintrodução de dieta MCT progressiva conforme drenagem
- Manter octreotida nas primeiras 72h se quilotórax
- Profilaxia de TEV se imobilização prolongada
- Profilaxia ATB perioperatória (cefazolina) — não é necessário curso prolongado
Complicações da intervenção linfática
As complicações se distribuem em três grandes grupos: (i) complicações da via de acesso (intranodal inguinal, cisterna do quilo, intra-hepático, intramesentérico); (ii) complicações dos agentes embolizantes (Lipiodol e NBCA); (iii) complicações específicas do alvo embolizado (em particular, embolização de conexões hepatoduodenais).
⚠️ Hemorragia digestiva alta após embolização hepatoduodenal / periduodenal
Complicação mais relevante e específica da embolização para EPP em paciente Fontan. Embora a maioria dos pacientes tenha apenas alterações endoscópicas leves, sangramentos significativos foram descritos e o reconhecimento precoce é essencial.
Mecanismos
- Migração intraluminal do agente embolizante (NBCA ± Lipiodol) através da fístula linfático-duodenal já presente — o caminho do vazamento se inverte e a cola atinge a luz duodenal/jejunal
- Erosão / inflamação da mucosa duodenal sobreposta a NBCA endurecido em contato com epitélio (efeito tóxico-inflamatório local)
- Lesão por isquemia local da microcirculação peri-duodenal por glue — descrita em embolizações arteriais periduodenais como ulcerações pós-embolização (~30% das séries de embolização gastroduodenal por sangramento)
- Coagulopatia de base da EPP (perda de proteínas da cascata da coagulação) potencializa qualquer sangramento mucoso
- Reposição inadequada de fatores, plaquetas, antiagregantes/anticoagulantes em uso
Apresentação clínica
- Melena (mais comum) — fezes escuras nas primeiras 24-72h pós-embolização
- Hematêmese — em sangramentos mais altos ou volumosos
- Queda do hematócrito/hemoglobina sem sinal externo evidente
- Taquicardia, hipotensão ortostática, palidez
- Dor abdominal/epigástrica nova ou desproporcional ao esperado
- Pode ocorrer tardiamente (até 1-2 semanas) por úlcera secundária formada sobre o glue
Diagnóstico
- Hemograma seriado (cada 4-6h nas primeiras 24-48h pós-procedimento)
- Tipagem sanguínea + reserva de hemoderivados antes do procedimento
- Endoscopia digestiva alta (EDA) precoce se sinais de sangramento — visualiza glue na luz duodenal, úlceras superpostas, mucosa pálida ou necrótica
- Angio-TC se sangramento ativo importante e EDA não conclusiva
Conduta
- Suporte hemodinâmico: 2 acessos calibrosos, cristaloide, hemoderivados conforme necessidade
- Reposição agressiva de fatores (plasma fresco, complexo protrombínico se INR elevado), plaquetas se < 50.000, fibrinogênio > 150 mg/dL
- IBP em dose plena (omeprazol 1-2 mg/kg/dose 12/12h IV) — não previne, mas reduz lesão mucosa secundária
- Suspender AAS/anticoagulação até estabilização e reavaliação
- EDA terapêutica se lesão ativa — clipes hemostáticos, injeção de adrenalina diluída, eletrocoagulação; raramente eficaz se sangramento difuso
- Embolização arterial seletiva (gastroduodenal/pancreaticoduodenal) em casos refratários — pelo radiologista intervencionista
- Cirurgia em último recurso — sangramento incontrolável
Prevenção
- Otimizar coagulação pré-procedimento: albumina, plasma, vitamina K, plaquetas conforme necessidade
- Suspender AAS/anticoagulação por tempo apropriado antes do procedimento (com discussão multidisciplinar)
- Mistura NBCA-Lipiodol em proporção mais lenta (1:3 a 1:5) para reduzir penetração distal e permitir polimerização mais controlada na fístula alvo
- Volume mínimo necessário de glue — interromper a injeção assim que ocluir o trajeto da fístula
- Microcateter posicionado o mais distal possível dentro da conexão hepatoduodenal — evitar refluxo proximal
- Avaliação endoscópica programada em 24-48h em pacientes de alto risco (coagulopatia, EPP grave) para diagnóstico precoce
- Monitorização clínica e laboratorial intensiva nas primeiras 72h
- Profilaxia farmacológica de proteção da mucosa gastroduodenal (ver tabela abaixo) — iniciar 24h antes do procedimento e manter por no mínimo 4-6 semanas
Profilaxia farmacológica — antiácidos / proteção de mucosa gastroduodenal
A inibição ácida deve ser iniciada 24h antes do procedimento e mantida por 4-6 semanas pós-embolização (até endotelização/cicatrização da fístula). IBP IV em dose plena é a primeira escolha; transição para via oral quando aceitar dieta. Em pacientes com EPP, considerar via IV ao longo de toda a fase aguda pela má absorção intestinal.
| Classe / fármaco | Dose pediátrica | Dose adulto | Observações |
|---|---|---|---|
| Inibidores da Bomba de Prótons (IBPs) — 1ª escolha | |||
| Omeprazol |
Profilaxia: 1 mg/kg/dia VO 1x/dia (máx 40 mg) IV: 1-2 mg/kg/dose 12/12h (máx 40 mg/dose) |
Profilaxia: 40 mg VO 1x/dia IV: 40 mg 12/12h (até 80 mg em dose de ataque) |
Mais usado em pediatria; disponibilidade ampla |
| Pantoprazol |
1 mg/kg/dose IV 12/12h (máx 40 mg/dose) VO: 0,5-1 mg/kg/dia (máx 40 mg) |
40 mg IV 12/12h (até 80 mg de ataque, depois 8 mg/h em BIC se sangramento ativo) VO: 40 mg 1x/dia |
Preferido em paciente crítico (estabilidade IV); BIC contínua se sangramento ativo |
| Esomeprazol |
0,5-1 mg/kg/dia VO (máx 40 mg) IV: 1 mg/kg/dose 12/12h (máx 40 mg) |
40 mg VO/IV 1x/dia (80 mg de ataque + 8 mg/h em BIC se sangramento ativo) |
Equivalente clínico ao omeprazol |
| Lansoprazol | 0,5-1,5 mg/kg/dia VO 1x/dia (máx 30 mg) | 30 mg VO 1x/dia | Alternativa oral; sem apresentação IV no Brasil |
| Bloqueadores H₂ — 2ª escolha (se IBP indisponível ou contraindicado) | |||
| Famotidina | 0,5 mg/kg/dose VO/IV 12/12h (máx 20 mg/dose; 40 mg/dia) | 20 mg VO/IV 12/12h (até 40 mg 12/12h) | Atualmente o H₂ disponível mais usado (após retirada da ranitidina) |
| Retirada do mercado pela ANVISA por contaminação com NDMA — não usar. | Não recomendada | ||
| Protetores tópicos de mucosa — adjuvantes | |||
| Sucralfato | 40-80 mg/kg/dia VO divididos em 4 tomadas (6/6h) — máx 1 g/dose, 4 g/dia | 1 g VO 6/6h (1 hora antes das refeições e ao deitar) | Adjuvante tópico — forma barreira sobre úlcera. Administrar separadamente dos IBPs (intervalo ≥ 1h) |
| Hidróxido de magnésio + alumínio | 0,5 mL/kg/dose VO 6/6h (máx 15 mL/dose) | 15 mL VO 6/6h após refeições e antes de dormir | Apenas alívio sintomático; não substitui IBP em profilaxia pós-embolização |
- D-1 (24h pré-procedimento): Pantoprazol 1 mg/kg IV 12/12h (ou Omeprazol equivalente)
- Intra e pós-procedimento (primeiras 72h): manter IBP IV em dose plena. Em sangramento ativo: pantoprazol/esomeprazol 80 mg de ataque IV + 8 mg/h em BIC contínua por 72h (dose adulto; pediátrico 1-2 mg/kg de ataque + 0,1-0,2 mg/kg/h)
- 72h - 14 dias: IBP IV 12/12h, transicionar para VO conforme tolerância à dieta
- Semanas 2 a 6: Manter IBP VO 1x/dia em jejum (omeprazol 1 mg/kg ou pantoprazol 0,5-1 mg/kg)
- Sucralfato 40-80 mg/kg/dia VO 6/6h como adjuvante a partir da reintrodução da dieta, manter por 4 semanas
- Reintrodução de AAS/anticoagulação: discussão multidisciplinar; geralmente após 7-14 dias se sem sangramento, com IBP mantido em paralelo
HDA após embolização hepatoduodenal
Cruzar sangue, plasma, plaquetas
IBP em bomba (omeprazol 1-2 mg/kg 12/12h IV)
Suspender AAS/anticoagulação
Avaliar glue intraluminal, úlceras, lesão mucosa
Hemograma seriado
Reintroduzir dieta gradual
clipes, adrenalina, eletrocoagulação
Embolização arterial seletiva (artéria gastroduodenal/pancreaticoduodenal)
(último recurso)
Complicações da via de acesso
| Complicação | Mecanismo / observações | Conduta |
|---|---|---|
| Hematoma / lesão vascular inguinal | Punção intranodal — rara com agulha 25G sob US | Compressão, observação |
| Lymphocele inguinal | Extravasamento por punção do hilo do linfonodo | Geralmente autolimitada; raramente necessita aspiração |
| Hematoma retroperitoneal | Punção transabdominal da cisterna do quilo — incidência geral de 0,06% em punções percutâneas, mortalidade 30-d aumentada 3,5x se ocorre | Suporte hemodinâmico, transfusão, embolização arterial seletiva ou cirurgia se grande/expansivo |
| Lesão de aorta, VCI ou ramo arterial | Punção transabdominal — rara com US/fluoro-guia | Conforme órgão atingido — suporte, eventual cirurgia vascular |
| Lesão de alça intestinal / pâncreas | Punção transabdominal — rara com agulha 22-25G | Geralmente autolimitada; vigilância para peritonite ou pancreatite |
| Hemobilia | Punção intra-hepática — rara; sangramento da via biliar para luz duodenal (melena, dor, icterícia) | Geralmente autolimitada; embolização arterial seletiva (artéria hepática) se persistente |
| Hematoma intra-hepático | Punção intra-hepática — mais comum em coagulopatia | Observação; raramente necessita drenagem |
| Contaminação venosa portal pelo contraste | Punção próxima a ramo portal — efeito clínico geralmente nulo, mas pode redirecionar Lipiodol/cola para circulação portal | Confirmar posição da agulha em ramo linfático antes de injetar agente embolizante |
Complicações dos agentes embolizantes — Lipiodol
| Complicação | Frequência / observações | Conduta |
|---|---|---|
| Embolia pulmonar oleosa (assintomática) | Comum (achado incidental em TC); habitualmente sem repercussão clínica se dose limitada | Observação; resolução espontânea em dias-semanas |
| Embolia pulmonar oleosa sintomática | Rara — risco maior se insuficiência respiratória prévia ou doses > 0,25 mL/kg de Lipiodol | O₂, CPAP/VNI, IOT se grave; suporte por horas-dias |
| Embolia paradoxal cerebral / sistêmica (AVC) | Muito rara mas grave — descrita em pacientes com shunt D-E (Fontan fenestrado, comunicação atrial residual). Caso publicado: embolismo cerebral por Lipiodol pós-embolização linfática para bronquite plástica | Prevenção: rastreio obrigatório de shunt D-E pré-procedimento; oclusão da fenestração ou uso de contraste hidrossolúvel se shunt presente. Em caso de evento: suporte neurológico |
| Embolia sistêmica disseminada | Raro caso publicado pós-linfografia para bronquite plástica em Fontan | Suporte multissistêmico; evento sentinela para revisão de técnica |
| Limite de dose recomendado | ~0,25 mL/kg, total 1-2 mL em pediatria, dividido entre os linfonodos inguinais | Respeitar rigorosamente o limite |
Complicações dos agentes embolizantes — N-butil cianoacrilato (NBCA)
| Complicação | Frequência / observações | Conduta |
|---|---|---|
| Embolização não-alvo (non-target) | Ocorrência mais comum; refluxo proximal ou progressão distal além do desejado | Reduzir com técnica meticulosa: microcateter distal, mistura NBCA-Lipiodol 1:3 a 1:5, segundo microcateter no duto torácico para "wash-out" durante injeção |
| Embolia pulmonar de glue | Rara — fragmentos podem atingir AP; geralmente assintomática | Observação; raramente exige resgate endovascular |
| Cateter colado / retido | Polimerização precoce dentro do microcateter | Tracionamento controlado; raramente exige cirurgia |
| Necrose tecidual local | Rara — relacionada a embolização excessiva ou de território único | Suporte; antibiótico se infecção secundária |
| Reação inflamatória local | Comum — dor abdominal transitória, febrícula, leucocitose leve nos primeiros dias | Analgesia, observação; descartar infecção/abcesso se febre > 72h |
Complicações específicas do duto torácico
| Complicação | Frequência / observações | Conduta |
|---|---|---|
| Oclusão completa inadvertida do duto torácico | Risco aumentado se não-utilizada técnica de proteção (segundo microcateter com fluxo de glicose) | Em Fontan: alto risco de EPP/ascite secundária — vigilância clínica e laboratorial; eventualmente requerer revascularização linfática |
| Diarreia crônica | Complicação tardia — descrita em ~14% após TDE convencional | Suporte nutricional; geralmente lentamente progressiva |
| Edema crônico de membros inferiores | Tardio — por reorientação de fluxo linfático periférico | Compressão elástica; fisioterapia linfática |
| Trombose venosa central | Raro — VCI/v. renal/pulmonar relacionado a manipulação cateter/glue | Anticoagulação plena conforme protocolo de TVP; ver protocolo de TVP após acesso venoso |
| Coleção linfática perinéfrica / quilosa retroperitoneal | Rara — extravasamento durante manipulação | Geralmente autolimitada; raramente exige drenagem |
| Cisalhamento do fio-guia / dispositivo | Rara — relacionada a tracionamento excessivo | Resgate endovascular com snare |
Complicações sistêmicas e gerais
| Complicação | Conduta |
|---|---|
| Dor abdominal transitória (frequente, autolimitada) | Analgesia simples; descartar perfuração/infecção se persistente |
| Hipotensão intra-procedimento | Volume + vasopressor; rastrear sangramento oculto |
| Resposta inflamatória sistêmica (febre, mal-estar nos primeiros 1-3 dias) | Sintomática; descartar infecção se prolongada |
| Reação alérgica ao contraste / Lipiodol | Pré-medicação em pacientes com história prévia; tratamento padrão de reação anafilática |
| Falha técnica (impossibilidade de acesso ao duto, mistura inadequada, anatomia desfavorável) | Reavaliar em 4-6 semanas com nova abordagem ou via alternativa |
Resultados publicados
Quilotórax pós-Fontan
- Tempo até resolução: 13 dias (10-24) com quilotórax vs 7 dias (5-11) sem (p < 0,001)
- Cateterismo intervencionista necessário em 18,2% dos quilotórax vs 2,6% sem
- Tempo de internação: 12 dias (10-20) vs 9 dias (7-12) (p < 0,001)
- Dias em UTI: 7 (2-11) vs 4 (2-7,5) (p = 0,010)
EPP
- Mortalidade histórica acumulada elevada (séries clássicas: ~50% em 5 anos pós-diagnóstico)
- Resposta a embolização seletiva: dados ainda limitados, série pequena com melhora clínica significativa
- Transplante cardíaco em EPP refratária: sobrevida imediata 88%, 10 anos 61%
Bronquite plástica
- Embolização seletiva (Itkin et al.): 88% de melhora clínica significativa em série inicial; 15/17 pacientes descontinuaram medicações respiratórias
- Mortalidade pré-embolização elevada; era pós-embolização: prognóstico significativamente melhorado
Seguimento ambulatorial
| Tempo | Avaliação |
|---|---|
| 1 semana | Consulta + Rx tórax + ECO + albumina/proteínas/eletrólitos |
| 1 mês | Consulta + ECO; alfa-1-antitripsina fecal se EPP; avaliação respiratória se bronquite plástica |
| 3 meses | RNM T2 (ou DCMRL se dúvida) — avaliar resposta linfática |
| 6 meses | Avaliação clínica completa + laboratório + RNM |
| Anual | Seguimento conjunto: cardiologia, gastroenterologia (EPP), pneumologia (bronquite), nutrição |
- Cooper DS et al. The role of the lymphatics in cardiac disease. 2024.
- Bauer C et al. Current diagnostic and therapeutic strategies for the management of lymphatic insufficiency in patients with hypoplastic left heart syndrome. Front Pediatr. 2023;11:1058567.
- Menon S et al. The lymphatic circulation in adaptations to the Fontan circulation. Pediatr Cardiol. 2017;38:886-892.
- Dori Y et al. Percutaneous lymphatic embolization of abnormal pulmonary lymphatic flow as treatment of plastic bronchitis in patients with congenital heart disease. Circulation. 2016;133(12):1160-70.
- Dori Y et al. MRI of lymphatic abnormalities after functional single-ventricle palliation surgery. AJR Am J Roentgenol. 2014;203(2):426-31.
- Dori Y et al. Intramesenteric Dynamic Contrast-Enhanced MR Lymphangiography. Radiology. 2020;294(1):223-229.
- Itkin M et al. Nonoperative thoracic duct embolization for traumatic thoracic duct leak: experience in 109 patients. J Thorac Cardiovasc Surg. 2010;139(3):584-9.
- Itkin M et al. Pediatric lymphatic interventions. Tech Vasc Interv Radiol. 2020.
- Biko DM et al. Pediatric pulmonary lymphatic flow disorders: diagnosis and management. Paediatr Radiol. 2022.
- Duran SR et al. Pleural drainage, clinical characteristics, and management strategies in the perioperative Fontan patient: a multicenter report. Pediatr Cardiol. 2025.
- Brakenhielm E et al. Role of cardiac lymphatics in myocardial edema and fibrosis. JACC. 2020.
- Mertens L et al. Protein-losing enteropathy after the Fontan operation: an international multicenter study. J Thorac Cardiovasc Surg. 1998;115:1063-73.
- Schumacher KR et al. Plastic bronchitis after Fontan: diagnosis and management. Pediatr Cardiol. 2014.
- European Lymphatic Working Group Statement. Centers for lymphatic interventions in Europe. 2024.
- Cope C et al. Diagnosis and treatment of postoperative chyle leakage via percutaneous transabdominal catheterization of the cisterna chyli. JVIR. 1999.
- Smith CL, Dori Y et al. Intrahepatic and Periduodenal Embolization for Protein-Losing Enteropathy Patients With Congenital Heart Disease. JACC. 2023.
- Pamarthi V, Stecker MS et al. Thoracic duct embolization for chylous leaks: review of complications and outcomes. JVIR. 2014 (revisão de complicações).
- Laslett D et al. Delayed complications following technically successful thoracic duct embolization. JVIR. 2012;23(1):76-9 — descreve diarreia crônica e edema de MMII em 14% pós-TDE.
- Reisenauer JS et al. Vascular and lymphatic complications after thoracic duct cannulation. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. 2018 — cisalhamento de fio-guia, trombose de VCI e v. renal, embolia pulmonar, coleção perinéfrica.
- Mortele KJ et al. Complications during lymphangiography and lymphatic interventions. Cardiovasc Intervent Radiol. 2020.
- Pieper CC et al. Intranodal lipiodol injection for the treatment of chyle leak in children — a preliminary experience. Cardiovasc Intervent Radiol. 2024.
- Parvinian A et al. Cerebral lipiodol embolism after lymphatic embolization for plastic bronchitis. J Vasc Interv Radiol. 2014 — caso de embolia cerebral por Lipiodol.
- Watanabe M et al. Disseminated systemic embolism of Lipiodol after lymphography for plastic bronchitis after Fontan repair. Front Pediatr. 2020;8:584185.
- Takeuchi Y et al. N-butyl cyanoacrylate embolotherapy: techniques, complications, and management. Diagn Interv Radiol. 2018;24(2):98-105.
- Vaidya S et al. Embolization with N-Butyl Cyanoacrylate: Properties, Techniques, Applications, and Pitfalls. RadioGraphics. 2025.
- Loffroy R et al. Embolization for upper GI bleeding — endovascular techniques and outcomes including post-embolization ulceration. Endovascular Today. 2016.
- Trambert J et al. Retroperitoneal hematoma as a complication of percutaneous intervention. Cardiovasc Intervent Radiol — incidência ~0,06%, ↑ mortalidade 30-d 3,5×.
- Pieper CC et al. Intrahepatic dynamic contrast MR lymphangiography: initial experience. Lymphat Res Biol. 2019.
- Manual de Hemodinâmica em Cardiopatias Congênitas — InCor HCFMUSP (protocolo institucional).
Portal › Protocolos › Linfografia e Intervenção Linfática