InCor Portal › Protocolos › Perda de Pulso
← Voltar ao Portal

Protocolo de Perda de Pulso após Cateterismo Cardíaco em Pediatria

v1.2 · Abril 2026

Conceito A trombose da artéria femoral é a complicação vascular mais frequente após cateterismo cardíaco em pediatria, especialmente em recém-nascidos e lactentes pequenos. A maioria responde à anticoagulação com heparina (UFH efetiva em 40-70% dos casos), mas casos refratários podem necessitar de heparina de baixo peso molecular, trombolíticos ou intervenção cirúrgica vascular. Este protocolo é aplicável a qualquer cateterismo pediátrico, independentemente do procedimento realizado.

Fatores de risco

  • Lactente < 1 ano ou < 10 kg
  • Introdutores de maior calibre (relação calibre do introdutor / diâmetro arterial)
  • Tempo prolongado de cateterismo
  • Ausência de pulso em algum momento durante o procedimento
  • Múltiplas tentativas de punção
  • Cardiopatia cianótica com policitemia

Prevenção

  • Minimizar trauma durante a punção arterial — preferir punção guiada por ultrassom
  • Heparinização sistêmica: 100-150 UI/kg na punção (TCA > 200s ou ACT > 100)
  • Selecionar o menor calibre de introdutor compatível com o procedimento
  • Retirar o introdutor o mais cedo possível
  • Evitar punções múltiplas
  • Compressão pós-retirada por tempo adequado, sem ser excessiva
Avaliação — quando e como
Em sala de hemodinâmica
Verificar pulso antes e imediatamente após a retirada do introdutor.
No leito (UTI/recuperação)
Pulso e temperatura do membro na chegada à UTI e após 2 horas. Reavaliar a cada 6h nas primeiras 24h.

Sinais de alarme — os "5 P's" da isquemia aguda

  • Pulselessness (ausência de pulso) — pulso pedioso/tibial fraco ou abolido
  • Pallor (palidez) — pele do membro acometido pálida ou marmórea
  • Poikilothermia (frialdade) — extremidade fria comparada ao membro contralateral
  • Pain (dor) — desconforto à manipulação (em RN pode ser difícil avaliar)
  • Paresthesia/Paralysis (parestesia/paralisia) — alterações motoras tardias indicam isquemia grave
Indicação para iniciar tratamento Pulso ausente ou fraco, OU membro frio em comparação ao contralateral. Não esperar por sinais avançados (palidez, dor, paralisia) — escalar precocemente.

Perda de pulso

Pulso femoral/pedioso ausente ou fraco, ou membro frio
Avisar equipe da Hemodinâmica em Cardiopatias Congênitas
Retirar curativo compressivo + imobilizar e aquecer o membro
Iniciar Enoxaparina (1ª linha) + solicitar USG/Doppler arterial
Reavaliação em 24 horas
Manter Enoxaparina terapêutica por 6 semanas (Kids-DOTT)
Considerar troca para Heparina IV
OU avaliar trombólise se persistência > 24-48h
Trombólise imediata (Alteplase) OU cirurgia vascular (trombectomia)
Por que enoxaparina como 1ª linha? As diretrizes ASH/ISTH 2024 recomendam HBPM (enoxaparina) como anticoagulante de escolha em pediatria por ter farmacocinética mais previsível, menor monitorização laboratorial, menor risco de plaquetopenia induzida por heparina (HIT) e administração SC (não exige acesso venoso contínuo). A heparina IV é reservada para casos em que se necessita ação rápida e reversível, ou quando o paciente terá procedimento iminente.

Anticoagulante de 1ª linha — Enoxaparina (HBPM) SC

Doses terapêuticas

IdadeDose inicialObservação
Prematuro 2,0 mg/kg/dose 12/12h SC Maior dose por baixos níveis de antitrombina e clearance acelerado (ASH/ISTH 2024)
RN a termo (< 2 meses) 1,7 mg/kg/dose 12/12h SC (seu manual InCor: 1,5 mg/kg — variação institucional aceitável)
> 2 meses 1,0 mg/kg/dose 12/12h SC Dose padrão pediátrica
Ponto crítico Em prematuros e RN, a dose inicial é maior que no adulto/criança porque os níveis de antitrombina são fisiologicamente baixos no neonato e o clearance da enoxaparina é mais rápido. A dose deve sempre ser ajustada por anti-Xa (vide abaixo).

Esquema de controle com anti-Xa — DETALHADO

Quando e como coletar

  • Tempo de coleta: exatamente 4 horas após a administração SC da dose (pico plasmático)
  • Primeira coleta: após a 2ª ou 3ª dose (steady-state inicial). Antes disso, os níveis ainda estão se equilibrando
  • Após ajuste de dose: nova coleta após a 2ª dose da nova dose
  • Monitoramento de rotina: semanal durante internação; mensal após alta hospitalar (ASH/ISTH 2024)
  • Em RN/prematuros: coletar antes da alta da UTI e a cada mudança significativa de peso (ajustar dose por kg atual)

Faixas terapêuticas alvo

IndicaçãoAnti-Xa alvo (U/mL)
Tratamento de trombose (terapêutico) 0,5 - 1,0 (faixa principal)
Profilaxia de trombose 0,1 - 0,3
Em alguns serviços (terapêutico ampliado) 0,5 - 1,2

Tabela de ajuste de dose conforme anti-Xa

Anti-Xa (U/mL)Ajuste de dosePróxima coleta de anti-Xa
< 0,35 (subterapêutico grave) Aumentar dose em 25% 4h após a 2ª nova dose
0,35 - 0,49 (subterapêutico leve) Aumentar dose em 10% 4h após a 2ª nova dose
0,5 - 1,0 (FAIXA TERAPÊUTICA) Manter dose Próxima rotina (semanal)
1,1 - 1,5 (supra-terapêutico leve) Reduzir dose em 20% 4h após a 2ª nova dose
1,6 - 2,0 (supra-terapêutico moderado) Suspender 1 dose (3h ou pular dose), reduzir 30% 4h após a 2ª nova dose
> 2,0 (toxicidade) Suspender até anti-Xa < 0,5; reiniciar com 40% menos Antes de reiniciar (anti-Xa < 0,5) e 4h após a 2ª nova dose
Outros exames concomitantes Hemograma com plaquetas na admissão e a cada 3-5 dias (monitorar plaquetopenia/HIT, embora rara em pediatria). Função renal (creatinina) pelo menos semanal — enoxaparina tem clearance renal e dose deve ser reduzida em insuficiência renal.
Causas comuns de anti-Xa fora da faixa
  • Coleta no horário errado (não 4h pós-dose) — causa principal de resultados aberrantes
  • Mudança de peso — recalcular dose com peso atual semanalmente
  • Interação medicamentosa — antifúngicos azólicos, AINE
  • Função renal alterada — reduzir dose se ClCr < 30 mL/min
  • Erro de aplicação SC — verificar técnica

Anticoagulante de 2ª linha — Heparina não-fracionada (UFH) IV

Reservada para: pacientes que terão procedimento cirúrgico/intervencionista iminente (heparina é facilmente reversível com protamina); função renal severamente comprometida; ou quando enoxaparina indisponível.

FaseDoseAlvo / Observação
Bolus inicial 50 UI/kg IV Imediatamente após detectar perda de pulso
Bolus adicional (se pulso fraco/ausente após 2h) 50 UI/kg IV Repetir uma vez antes de iniciar manutenção
Manutenção — > 1 ano 20 UI/kg/h IV contínua Alvo TTPa 1,5-2,5x basal ou anti-Xa 0,35-0,7 U/mL
Manutenção — < 1 ano 28 UI/kg/h IV contínua Maior dose por menor sensibilidade da heparina em RN
Reversão da Heparina Protamina 1 mg para cada 100 UI de heparina (máximo 50 mg). Administrar lentamente em 10 min — risco de hipotensão e broncoespasmo.

Duração do tratamento anticoagulante

Baseado nas diretrizes ASH/ISTH 2024 e estudo Kids-DOTT:

  • Trombose provocada (cateter como fator) com recanalização: 6 semanas de enoxaparina terapêutica (não-inferior aos 3 meses, conforme Kids-DOTT)
  • Trombose persistente após 6 semanas: estender por mais 6 semanas e reavaliar
  • Trombose com fator persistente (cateter mantido, cardiopatia cianótica não corrigida): manter enquanto fator estiver presente, reavaliar a cada 3 meses
  • Após resolução: iniciar AAS 3-5 mg/kg/dia VO se houver previsão de novo cateterismo ou cirurgia em < 6 meses

Trombólise com Alteplase (rtPA) — quando indicar

Indicada quando a anticoagulação não recuperou o pulso após 24h ou em casos de isquemia aguda grave de início (membro frio + palidez + ausência de fluxo ao Doppler). A modalidade cateter-direcionada é preferencial em pediatria por permitir doses menores e menor risco hemorrágico.

ModalidadeDoseDuração
Cateter-direcionada (preferencial) 0,1 mg/kg/h IV contínua via cateter no trombo
(máximo 20 mg em 24h)
Até 96h, reavaliar a cada 6-12h
Sistêmica baixa-dose 0,03 - 0,06 mg/kg/h IV contínuo 6-12h, reavaliar a cada 6h
Heparina concomitante 10 UI/kg/h (subterapêutica) durante a trombólise Manter durante e após rtPA
Suporte com hemoderivados durante trombólise Manter fibrinogênio > 100 mg/dL (crioprecipitado se necessário), plaquetas > 50.000-100.000/mm³, considerar PFC 10 mL/kg antes para suprir plasminogênio em RN. Monitorizar fibrinogênio e D-dímero a cada 4-6h. USG transfontanela antes e a cada 12-24h durante a infusão.
Contraindicações relativas à trombólise Hemorragia ativa ou recente, HIC ou IVH grau III/IV, cirurgia maior < 7-10 dias, prematuridade < 32 semanas, encefalopatia hipóxico-isquêmica grave.

Quando indicar cirurgia vascular (trombectomia)

  • Isquemia aguda grave com sinais de paralisia, parestesia ou ameaça de viabilidade do membro
  • Falha da trombólise após 24-48h de tratamento adequado
  • Contraindicação à trombólise em paciente com isquemia significativa
  • Retrombose após resgate inicial bem-sucedido
  • Pseudoaneurisma grande ou expansão rápida do hematoma

A maioria dos casos não chega a esse ponto — a anticoagulação precoce e a trombólise resolvem > 80% dos casos. A cirurgia é último recurso, especialmente em RN onde a manipulação cirúrgica de pequenos vasos é tecnicamente desafiadora.

Referências bibliográficas consultadas
  • ASH/ISTH 2024 — American Society of Hematology / International Society on Thrombosis and Haemostasis 2024 updated guidelines for treatment of venous thromboembolism in pediatric patients. Blood Adv. 2025;9(10):2587.
  • Goldenberg NA et al. Kids-DOTT trial: Effect of Anticoagulant Therapy for 6 Weeks vs 3 Months on Recurrence and Bleeding Events in Patients Younger Than 21 Years of Age With Provoked Venous Thromboembolism. JAMA. 2022;327(2):129-137.
  • Manual de Hemodinâmica em Cardiopatias Congênitas — InCor HCFMUSP (protocolo institucional).
  • Monagle P et al. Antithrombotic Therapy in Neonates and Children (ACCP). Chest. 2012;141(2 Suppl):e737S-e801S.
  • Albisetti M. Pediatric Thrombolysis: A Practical Approach. Front Pediatr. 2017;5:260.
  • Goldenberg NA et al. Pediatric arterial thrombosis: clinical management. Hematology Am Soc Hematol Educ Program. 2018.
  • Manlhiot C et al. Risk, clinical features, and outcomes of thromboembolism in children with congenital heart disease. Pediatrics. 2011.
  • Livingston B et al. Rapid Enoxaparin Adjustment for Childhood Thrombosis/Thromboprophylaxis. Pediatr Blood Cancer. 2025.
Aviso clínico Este protocolo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica e não substitui o julgamento individual do médico assistente. Doses devem ser sempre conferidas em fontes primárias e ajustadas ao paciente. Atualizações periódicas são recomendadas.