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Trombose Venosa Profunda após Acesso Vascular Venoso em Pediatria

v1.0 · Abril 2026

Conceito A trombose venosa profunda (TVP) é uma complicação reconhecida do acesso venoso em pediatria, particularmente após cateterização venosa central (CVC) e cateterismo cardíaco com acesso femoral venoso. Em RN e lactentes, a anatomia das veias femorais e a relação cateter/diâmetro do vaso aumentam o risco. Diferente da TVP arterial, a maioria das TVPs venosas é oligossintomática ou assintomática, sendo descoberta apenas em USG/Doppler de rastreamento ou quando há sinais tardios de síndrome pós-trombótica. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado evitam complicações como embolia pulmonar e síndrome pós-trombótica.

Fatores de risco

  • Cateteres venosos centrais (CVC) — fator mais importante (responsável por ~90% das TVPs em pediatria)
  • Idade: RN e lactentes < 1 ano (relação calibre cateter / diâmetro vaso)
  • Cardiopatia congênita — especialmente cianóticas (policitemia, hiperviscosidade)
  • Cateterismo prolongado ou múltiplos acessos
  • Permanência prolongada do cateter (> 5-7 dias)
  • Estado pró-trombótico: sepse, desidratação, baixo débito, uso de inotrópicos
  • Trombofilia congênita (rara em pediatria, mas considerar em casos recorrentes)
  • Cirurgia cardíaca ou abdominal recente
  • Imobilização prolongada
  • Punções repetidas no mesmo vaso

Prevenção

  • Indicar CVC apenas quando necessário e retirá-lo o mais cedo possível
  • Selecionar o menor calibre compatível com a necessidade clínica
  • Punção guiada por ultrassom — reduz traumatismo vascular
  • Evitar punções múltiplas no mesmo sítio
  • Profilaxia farmacológica não é rotineira em pediatria — considerar em pacientes de alto risco com ≥ 2 fatores associados (recomendação ASH 2024 condicional)
  • Manter hidratação adequada
  • Mobilização precoce quando possível

Apresentação clínica

A TVP venosa em pediatria é frequentemente silenciosa ou oligossintomática. Quando sintomática, manifestações dependem da localização:

TVP em membros inferiores (femoral, ilíaca)
  • Edema unilateral do membro
  • Mudança de cor (cianose, palidez ou eritema)
  • Dor à palpação ou desconforto
  • Aumento de circunferência (medida comparativa)
  • Calor local
TVP em membros superiores (subclávia, jugular)
  • Edema do braço/face/pescoço
  • Síndrome da veia cava superior (em casos extensos)
  • Circulação colateral visível
  • Disfunção do CVC (resistência à infusão, refluxo)
  • Cefaleia (se trombo até VCS)
TVP de cava inferior — atenção especial Em RN com CVC umbilical ou femoral prolongado, pode ocorrer trombose extensa de cava inferior. Sinais: edema bilateral de MMII, distensão venosa abdominal, sinais de hipertensão portal se compromete veias hepáticas. Risco aumentado de embolia pulmonar.

Diagnóstico

Exame de escolha — Ultrassonografia com Doppler venoso

  • Sensibilidade e especificidade elevadas em pediatria, não-invasivo, sem radiação
  • Avaliar: compressibilidade da veia, fluxo Doppler, presença de trombo direto
  • Solicitar para todo paciente com sinais clínicos sugestivos OU em rotina pós-retirada de CVC prolongado em pacientes de alto risco

Outros exames

  • D-dímero: baixa especificidade em pediatria — útil para excluir, não para confirmar. Valores normais em recém-nascidos podem ser fisiologicamente elevados
  • Angiotomografia (TC com contraste): reservada para suspeita de TVP de veias profundas (cava, ilíaca proximal) ou embolia pulmonar associada
  • Venografia direta: raramente necessária — quando dúvida diagnóstica e necessidade de planejamento de intervenção
  • Ressonância magnética: alternativa à TC sem contraste/radiação, especialmente em RN

Avaliação laboratorial inicial

  • Hemograma com plaquetas
  • Coagulograma (TP, TTPa, fibrinogênio)
  • Função renal (creatinina) — para dosagem de enoxaparina
  • Função hepática
  • Trombofilia em casos selecionados (TVP recorrente, história familiar, idade > 1 ano sem fator provocador claro): proteína C, S, antitrombina, fator V Leiden, mutação protrombina, anticorpos antifosfolípides

Fluxograma de conduta

Suspeita clínica de TVP OU achado em USG de rotina
USG com Doppler venoso da região + exames laboratoriais
TVP confirmada?
Investigar outras causas (edema, infecção)
Iniciar Enoxaparina terapêutica (1ª linha)
Cateter ainda em uso?
MANTER cateter (não retirar rotineiramente)
Retirar após 3-5 dias de anticoagulação efetiva
CVC ainda em uso?
Iniciar Enoxaparina terapêutica
Anticoagulação por 6 semanas (Kids-DOTT)
OU vigilância expectante em casos selecionados (ASH 2024)
Após início da anticoagulação:
USG de controle em 6 semanas + decisão de duração

Tratamento — Enoxaparina (HBPM) como 1ª linha

A enoxaparina é o anticoagulante de 1ª escolha em pediatria conforme ASH/ISTH 2024 — farmacocinética previsível, administração SC, baixo risco de HIT, monitorização simples por anti-Xa.

Doses terapêuticas

IdadeDose inicialObservação
Prematuro 2,0 mg/kg/dose 12/12h SC Maior dose por baixos níveis de antitrombina e clearance acelerado
RN a termo (< 2 meses) 1,7 mg/kg/dose 12/12h SC Dose ajustada por anti-Xa
2 meses a 1 ano 1,5 mg/kg/dose 12/12h SC Faixa intermediária
> 1 ano 1,0 mg/kg/dose 12/12h SC Dose padrão pediátrica

Esquema de controle com anti-Xa

Quando e como coletar

  • Tempo de coleta: exatamente 4 horas após a administração SC da dose (pico plasmático)
  • Primeira coleta: após a 2ª ou 3ª dose (steady-state inicial)
  • Após ajuste de dose: nova coleta após a 2ª dose da nova dose
  • Monitoramento de rotina: semanal durante internação; mensal após alta hospitalar
  • Em RN/prematuros: coletar a cada mudança significativa de peso (recalcular dose)

Faixas terapêuticas alvo

IndicaçãoAnti-Xa alvo (U/mL)
Tratamento de TVP (terapêutico) 0,5 - 1,0 (faixa principal)
Profilaxia de TVP (em pacientes de alto risco) 0,1 - 0,3

Tabela de ajuste de dose conforme anti-Xa

Anti-Xa (U/mL)Ajuste de dosePróxima coleta
< 0,35 (subterapêutico grave) Aumentar dose em 25% 4h após a 2ª nova dose
0,35 - 0,49 (subterapêutico leve) Aumentar dose em 10% 4h após a 2ª nova dose
0,5 - 1,0 (TERAPÊUTICA) Manter dose Próxima rotina (semanal)
1,1 - 1,5 (supra-terapêutico leve) Reduzir dose em 20% 4h após a 2ª nova dose
1,6 - 2,0 Suspender 1 dose, reduzir 30% 4h após a 2ª nova dose
> 2,0 (toxicidade) Suspender até anti-Xa < 0,5; reiniciar com 40% menos Antes de reiniciar e 4h após 2ª nova dose
Outros exames concomitantes Hemograma com plaquetas na admissão e a cada 3-5 dias (HIT é rara em pediatria, mas monitorar). Função renal (creatinina) semanal — enoxaparina tem clearance renal e dose deve ser reduzida em insuficiência renal.

Heparina não-fracionada (UFH) IV — 2ª linha

Reservada para: pacientes que terão procedimento cirúrgico/intervencionista iminente; insuficiência renal severa; ou indisponibilidade da enoxaparina.

FaseDoseAlvo / Observação
Bolus inicial 75-100 UI/kg IV Lentamente em 10 min
Manutenção — > 1 ano 20 UI/kg/h IV contínua Alvo TTPa 1,5-2,5x basal ou anti-Xa 0,35-0,7 U/mL
Manutenção — < 1 ano 28 UI/kg/h IV contínua Maior dose por menor sensibilidade em RN

Manejo do cateter venoso central

  • Cateter ainda necessário e funcionante: NÃO remover rotineiramente — mantém-se durante o tratamento (ASH 2024). Anticoagulação concomitante reduz risco de progressão
  • Cateter não mais necessário: retirar após 3-5 dias de anticoagulação efetiva (anti-Xa terapêutico)
  • Cateter disfuncional ou infectado: retirar prontamente, mesmo se ainda houver indicação clínica — substituir por outro acesso
  • Trombo extenso ou sintomas progressivos: retirar o cateter assim que possível, sob anticoagulação
Importante A retirada do cateter durante TVP ativa, sem anticoagulação efetiva, aumenta o risco de embolização do trombo. Sempre garantir anticoagulação adequada antes da retirada (mínimo 3-5 dias com anti-Xa em faixa terapêutica).

Duração do tratamento — diretrizes ASH/ISTH 2024

CenárioDuração recomendadaBase
TVP provocada (CVC removido, fator transitório) 6 semanas de enoxaparina terapêutica Kids-DOTT 2022 — não-inferior aos 3 meses
TVP com fator persistente (CVC mantido, cardiopatia não corrigida) Manter durante presença do fator + 6 semanas após resolução ASH 2024
TVP recorrente 3-6 meses + investigação de trombofilia ASH 2024
TVP idiopática (sem fator identificado) 3-6 meses; considerar avaliação de trombofilia ASH 2024
TVP com embolia pulmonar associada 3 meses (mínimo) ASH 2024
Estudo Kids-DOTT (JAMA 2022) — referência principal Demonstrou que em pacientes pediátricos com TVP provocada (cateter como fator), o tratamento com HBPM por 6 semanas é não-inferior aos 3 meses tradicionais, com mesma taxa de recorrência e menor exposição ao anticoagulante.

Trombólise — quando indicar (raramente em TVP venosa)

A trombólise sistêmica em TVP venosa pediátrica é raramente indicada — riscos hemorrágicos geralmente superam benefícios. Considerar apenas em:

  • TVP extensa com risco de perda de membro (ex: phlegmasia cerulea dolens)
  • TVP de cava com instabilidade hemodinâmica ou risco iminente de embolia pulmonar grande
  • Embolia pulmonar maciça com instabilidade hemodinâmica
  • Trombo intracardíaco em paciente sintomático

Doses de Alteplase (rtPA) — apenas em casos selecionados

ModalidadeDoseDuração
Cateter-direcionada (preferencial) 0,01 - 0,06 mg/kg/h IV via cateter no trombo 6-24h conforme angiografia
Sistêmica baixa-dose 0,03 - 0,06 mg/kg/h IV contínuo 6-12h, reavaliar a cada 6h
Suporte com hemoderivados durante trombólise Manter fibrinogênio > 100 mg/dL, plaquetas > 50.000/mm³. PFC 10 mL/kg antes em RN para suprir plasminogênio. USG transfontanela antes e a cada 12-24h.

Complicações da TVP venosa

ComplicaçãoDescrição / Conduta
Embolia pulmonar (EP) Dispneia súbita, taquicardia, hipoxemia inexplicada. Confirmação: angio-TC ou cintilografia. Tratamento: anticoagulação plena ± trombólise se instabilidade.
Síndrome pós-trombótica Edema crônico, dor, alterações tróficas no membro afetado. Tratamento: meias de compressão (se idade permite), fisioterapia, anticoagulação prolongada se recorrência.
Síndrome da veia cava superior Edema de face/pescoço/braço, circulação colateral. Confirmação: TC/RM. Tratamento: anticoagulação + considerar trombólise + retirada do cateter causal.
Quilotórax (TVP de subclávia) Drenagem linfática comprometida. Tratamento: drenagem torácica + dieta zero ou TCM + anticoagulação.
Hipertensão portal (TVP de veias hepáticas/porta) Esplenomegalia, varizes, ascite. Avaliação por gastrohepatologia.
Recorrência Mais comum em pacientes com fator persistente. Investigar trombofilia. Anticoagulação prolongada.

Seguimento e investigação de trombofilia

  • USG Doppler de controle em 6 semanas — avaliar recanalização. Se recanalização completa, suspender anticoagulação. Se persistência, estender por mais 6 semanas.
  • Avaliação ambulatorial aos 3 e 6 meses pós-evento — sintomas residuais, síndrome pós-trombótica
  • Investigação de trombofilia indicada em:
    • TVP recorrente
    • TVP idiopática (sem fator provocador)
    • História familiar forte de TVP/EP
    • TVP em sítios incomuns (mesentérica, cerebral)
  • Painel de trombofilia: proteína C, S, antitrombina, fator V Leiden, mutação protrombina G20210A, anticorpos antifosfolípides, homocisteína. Coletar APÓS suspensão da anticoagulação (3-4 semanas após) para evitar interferência.
Referências bibliográficas consultadas
  • ASH/ISTH 2024 — American Society of Hematology / International Society on Thrombosis and Haemostasis 2024 updated guidelines for treatment of venous thromboembolism in pediatric patients. Blood Adv. 2025;9(10):2587.
  • Goldenberg NA et al. Kids-DOTT trial: Effect of Anticoagulant Therapy for 6 Weeks vs 3 Months on Recurrence and Bleeding Events in Patients Younger Than 21 Years of Age With Provoked Venous Thromboembolism. JAMA. 2022;327(2):129-137.
  • Monagle P et al. Antithrombotic Therapy in Neonates and Children (ACCP). Chest. 2012;141(2 Suppl):e737S-e801S.
  • Jaffray J, Young G. Central venous catheter-related thrombosis in children and adults. Thromb Res. 2020.
  • Vidal E et al. Central venous catheter-related thrombosis: A practical approach. PMC. 2017.
  • Risk factors and incidence of central venous access device-related thrombosis in hospitalized children — Pediatric Research. 2024.
  • Manlhiot C et al. Risk, clinical features, and outcomes of thromboembolism in children with congenital heart disease. Pediatrics. 2011.
  • Manual de Hemodinâmica em Cardiopatias Congênitas — InCor HCFMUSP (protocolo institucional).
Aviso clínico Este protocolo é uma ferramenta de apoio à decisão clínica e não substitui o julgamento individual do médico assistente. Doses devem ser sempre conferidas em fontes primárias e ajustadas ao paciente. Atualizações periódicas são recomendadas.