Indicações e contraindicações
Indicações
- PCA com repercussão hemodinâmica (sobrecarga de cavidades esquerdas, Qp:Qs > 1,5)
- Sintomas de IC, dispneia, ganho ponderal lento, infecções respiratórias de repetição
- História de endocardite infecciosa relacionada ao PCA
- PCA residual pós cirúrgico/cateterismo
Contraindicações
- Absolutas: hipertensão pulmonar irreversível (RVP > 5 UW/m² ou Eisenmenger), sepse/endocardite ativa, PCA dependente (cardiopatia complexa)
Avaliação pré-procedimento ▼
Anamnese e exame físico
- Sintomas de IC, ganho ponderal, infecções respiratórias
- Sopro contínuo característico (em maquinaria) em região infraclavicular esquerda
- Pulsos amplos / saltitantes (PA divergente)
- Frêmito sistólico e/ou diastólico
Exames complementares
| Exame | O que avaliar |
|---|---|
| Ecocardiograma transtorácico | Diâmetro do PCA (mínimo e ampola aórtica), classificação de Krichenko, Qp:Qs, dimensão de AE e VE, função ventricular, gradiente Ao→AP, descartar anomalias associadas (coarctação, anomalia de retorno venoso) |
| ECG | Sobrecarga de VE/AE, distúrbios do ritmo |
| RX de tórax | Cardiomegalia, hiperfluxo pulmonar |
| Hemograma + coagulograma + função renal + tipagem sanguínea | Pré-operatório padrão |
| Angio-TC (casos selecionados) | Casos com anatomia complexa, suspeita de coarctação, PCA tubular longo, dúvida diagnóstica |
Preparo do paciente
- Jejum conforme idade (4h leite materno, 6h fórmula, 8h sólidos)
- Acesso venoso periférico antes da entrada em sala
- Anestesia geral (preferencial em < 18 anos) ou sedação profunda + anestesia local (adolescentes/adultos cooperativos)
- Profilaxia antibiótica: Cefazolina 30 mg/kg IV imediatamente antes do procedimento
Classificação anatômica de Krichenko
A classificação de Krichenko (1989) é fundamental para a seleção do dispositivo e técnica de implante. Baseia-se na angiografia lateral aórtica.
Dispositivos disponíveis e seleção
| Dispositivo | Indicação | Diâmetro do PCA | Acesso |
|---|---|---|---|
| ADO I (Amplatzer Duct Occluder I) | Tipo A clássico (cônico) com ampola adequada | > 2,5 mm e até 11-12 mm | Femoral venoso 5-7 Fr |
| ADO II | Tipo B, C (tubular), pequenos PCAs sem ampola | Até 5,5 mm | Femoral venoso ou arterial 4-5 Fr |
| ADO II AS (Piccolo) | PCAs muito pequenos (< 2,5 mm) | 1,5 - 2,5 mm | Femoral 4 Fr |
| AVP II (Amplatzer Vascular Plug II) | PCAs tubulares grandes (> 3 mm) com ampola insuficiente | 3 - 12 mm | Femoral venoso 5-7 Fr |
Regra geral de tamanho do dispositivo
Fluxograma de seleção de dispositivo
Cuidados pós-procedimento
- Observação em UTI ou unidade de cuidados intermediários por 24 horas
- Repouso no leito com membro inferior estendido por 4-6 horas
- Pulsos pediosos / temperatura do membro — controle a cada 2 horas nas primeiras 24h (ver protocolo de Perda de Pulso se alteração)
- ECO transtorácico 24h pós-procedimento — confirmar posição do dispositivo, avaliar fluxo residual, descartar coarctação ou estenose de APE
- ECG e Rx de tórax antes da alta
- AAS 3-5 mg/kg/dia VO por 6 meses (antiagregação até endotelização completa)
- Profilaxia de endocardite por 6 meses após o procedimento (em todos os procedimentos invasivos com risco de bacteremia)
- Alta hospitalar em 24-48h se sem complicações
Complicações principais
Embolização do dispositivo
- Incidência < 1%. Mais comum em PCAs grandes ou com seleção inadequada do dispositivo
- Conduta: resgate endovascular com snare/laço gooseneck, mais frequentemente para artéria pulmonar distal ou aorta abdominal
- Se insucesso → cirurgia emergencial para retirada
Estenose de APE (artéria pulmonar esquerda)
- Mais comum em pacientes pequenos com canal próximo à origem da APE — disco do dispositivo pode protruir
- Avaliar com Doppler em ECO de controle (gradiente, velocidade)
- Conduta:
- Leve (< 30 mmHg): observação
- Moderada/grave: cateterismo + angioplastia/stent de APE
Coarctação iatrogênica
- Pode ocorrer se o disco aórtico é grande demais ou se protrui na aorta descendente
- Avaliar com ECO (gradiente Ao descendente) e medida de PA nos 4 membros
- Conduta:
- Leve (< 20 mmHg): observação, geralmente melhora em 6 meses
- Significativa: angioplastia ou stent; raramente cirurgia para retirada do dispositivo
⚠️ Hemólise — complicação clinicamente mais grave
Embora rara (incidência ~0,8%), é a complicação com maior potencial de gravidade clínica e exige reconhecimento e manejo imediato.
Fisiopatologia
A hemólise pós-fechamento de PCA é mecânica intravascular — o jato turbilhonar de alta velocidade do fluxo residual através ou ao redor do dispositivo destrói as hemácias por estresse de cisalhamento (shear stress). Quase nunca ocorre na oclusão completa — é praticamente sempre associada a shunt residual significativo.
Fatores de risco
- PCA > 3 mm — risco aumentado quando o canal nativo é grande
- Fluxo residual significativo imediatamente pós-implante (fluxo residual < 1 mm raramente causa hemólise)
- Doppler com onda contínua persistente ao ECO — sinal de turbilhonamento ativo
- Discrepância entre dispositivo e canal (subdimensionamento)
Apresentação clínica
Geralmente entre 6-72 horas pós-procedimento:
- Hemoglobinúria — urina escura, "cor de coca-cola", sinal mais precoce e visível
- Icterícia — pelo aumento de bilirrubina indireta
- Palidez progressiva e queda do hematócrito
- Taquicardia, eventualmente sinais de IC se anemia grave
- Sopro residual contínuo mantido (sinal de fluxo persistente)
- Em casos graves: oligúria, sinais de insuficiência renal aguda por necrose tubular induzida pela hemoglobinúria
Avaliação laboratorial — confirmação da hemólise intravascular
| Parâmetro | Achado | Significado |
|---|---|---|
| Hb / Ht | ↓ progressiva | Anemia hemolítica em curso — acompanhamento seriado a cada 6-12h |
| LDH | ↑↑↑ (geralmente > 1500-2000 U/L) | Marcador mais sensível — liberação de hemácias destruídas |
| Bilirrubina indireta (BI) | ↑ | Metabolização do heme |
| Haptoglobina | ↓↓ (< 25 mg/dL ou indetectável) | Consumo pela ligação à Hb livre — marcador específico |
| Reticulócitos | ↑ | Resposta medular à anemia |
| Esfregaço de sangue periférico | Esquizócitos / hemácias fragmentadas | Confirmação morfológica de hemólise mecânica |
| Hb livre plasmática | ↑ (plasma róseo/avermelhado) | Sinal de hemólise intravascular ativa |
| Hemoglobinúria (urina I) | Hb positiva sem hemácias no sedimento | Hb livre filtrada pelo glomérulo |
| Função renal (Cr, ureia, débito urinário) | ↑ Cr, oligúria possível | Risco de necrose tubular aguda — monitorizar de perto |
| Coombs direto | Negativo | Diferencia hemólise mecânica de imunológica |
| Eletrólitos (K+ especialmente) | ↑ K+ pode ocorrer | Liberação intracelular pela destruição |
Critérios de gravidade
- Hb estável
- LDH < 1500
- Sem hemoglobinúria visível
- Função renal preservada
- Queda de Hb 1-2 g/dL/dia
- LDH 1500-3000
- Hemoglobinúria visível
- Função renal preservada
- Queda de Hb > 2 g/dL/dia ou necessidade transfusional repetida
- LDH > 3000
- Insuficiência renal aguda
- Instabilidade hemodinâmica
Conduta na hemólise
Reavaliação clínica e laboratorial 12/12h
Suporte clínico durante a hemólise
- Hidratação vigorosa: 1,5-2x manutenção, garantir débito urinário > 2 mL/kg/h para evitar precipitação tubular de hemoglobina
- Alcalinização urinária: bicarbonato de sódio 1-2 mEq/kg em infusão para manter pH urinário > 7,0 (reduz toxicidade renal da hemoglobina livre)
- Transfusão de concentrado de hemácias: se Hb < 8 g/dL ou queda rápida com instabilidade. Pode ser necessário transfusões seriadas até resolução do fluxo residual
- Monitorização renal: creatinina, ureia, débito urinário, eletrólitos a cada 12h. Considerar diálise/TRRC se IRA estabelecida
- Suporte nutricional e correção de distúrbios eletrolíticos (especialmente hipercalemia)
- Evitar drogas nefrotóxicas (aminoglicosídeos, AINE)
- Repouso e analgesia conforme necessário
Prevenção
- Seleção criteriosa do dispositivo — usar regra do "+2 mm" e considerar oversize generoso em PCAs > 3 mm
- Confirmação angiográfica de oclusão satisfatória antes da liberação definitiva — não liberar se há fluxo residual significativo
- Considerar dispositivo alternativo se a primeira tentativa não atinge oclusão adequada
- ECO precoce (24h) para detectar fluxo residual e iniciar monitorização ativa de hemólise se presente
- Atenção redobrada em PCAs grandes (> 3 mm) — risco aumentado
Prognóstico
A maioria dos casos (> 80%) resolve com conduta expectante ou com implante de coil adicional. Mortalidade é rara quando o diagnóstico é precoce e o manejo é adequado, mas pode ocorrer em casos negligenciados que evoluem para insuficiência renal grave ou anemia profunda. O atraso no reconhecimento é o principal fator de pior desfecho.
Endocardite infecciosa
- Rara (< 0,5%). Mais frequente nos primeiros 6 meses pós-procedimento (período de endotelização)
- Conduta: hemoculturas, ATB IV 4-6 semanas, ECO para vegetação. Cirurgia se vegetação grande, embolização ou abscesso.
- Prevenção: profilaxia ATB em procedimentos invasivos por 6 meses pós-implante
Complicações de acesso vascular
Trombose femoral, perda de pulso, hematoma, pseudoaneurisma — ver protocolo dedicado de Perda de Pulso após Cateterismo.
Seguimento ambulatorial
| Tempo | Avaliação |
|---|---|
| 24-48h pós-procedimento (alta) | ECO transtorácico, ECG, Rx de tórax |
| 1 mês | Consulta + ECO — avaliar oclusão, posição do dispositivo, descartar coarctação/estenose APE |
| 6 meses | Consulta + ECO — confirmar oclusão completa, avaliar dimensões cardíacas (regressão da sobrecarga). Liberar profilaxia ATB. |
| 1 ano | Consulta + ECO — alta cardiológica se sem alterações |
| Anos seguintes | Avaliação anual ambulatorial. Geralmente não necessita ECO de rotina após 2 anos se assintomático. |
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