Apresentação clínica do adulto com CIA
Diferentemente da criança (em geral assintomática), o adulto com CIA não corrigida frequentemente apresenta sintomas progressivos a partir da 3ª-4ª década:
- Dispneia aos esforços e redução da capacidade funcional (mais comum)
- Palpitações e fibrilação atrial (≥ 20% após os 40 anos; ≥ 50% após os 60 anos)
- Sinais de insuficiência cardíaca direita em casos avançados
- Hipertensão pulmonar de grau variável
- Embolia paradoxal (AVC criptogênico — sobreposição com PFO)
- Cianose por inversão do shunt em fase tardia (Eisenmenger)
Indicação e contraindicações
Indicação (Diretrizes ESC 2020 / AHA-ACC 2018)
- CIA tipo ostium secundum com:
- Sobrecarga de cavidades direitas (dilatação de AD/VD ao ECO)
- Qp:Qs ≥ 1,5 ou shunt clinicamente relevante
- Independente da presença de sintomas — fechamento indicado para reduzir morbidade futura mesmo em pacientes assintomáticos quando há sobrecarga de cavidades direitas
- Embolia paradoxal sistêmica documentada (em conjunto com avaliação neurológica)
- Síndrome de platypneia-ortodeóxia
Contraindicações para o fechamento percutâneo com dispositivo de oclusão
- CIA tipo ostium primum, seio venoso inferior e seio coronário — indicação cirúrgica
- Defeito muito grande (> 38 mm) ou com bordas insuficientes em múltiplas posições
- Hipertensão pulmonar irreversível (RVP > 5 WU após teste com vasodilatador, Qp:Qs < 1,5, fisiologia de Eisenmenger)
- Trombo intracardíaco (especialmente apêndice atrial esquerdo em paciente com FA)
- Endocardite ativa
- Disfunção diastólica grave do VE (E/e' > 15, PCP elevada) — risco de edema agudo de pulmão pós-fechamento; considerar teste de oclusão ou dispositivo fenestrado
Avaliação pré-procedimento — adulto ▼
Ecocardiograma transtorácico (ETT)
- Identificação do tipo da CIA
- Diâmetro do defeito em múltiplas projeções
- Sobrecarga de cavidades direitas (dilatação de AD/VD, função sistólica de VD)
- Avaliação detalhada do VE: função sistólica, função diastólica (E/e', volume AE), pressão estimada de PCP
- PSAP estimada por refluxo tricúspide
- Identificação das veias pulmonares (descartar drenagem anômala)
- Pesquisa de trombo intracavitário
Ecocardiograma transesofágico (ETE) ambulatorial
- Confirmação anatômica detalhada (tipo, número de defeitos, septum aneurismático)
- Avaliação das bordas (rims) em múltiplas projeções (ver tabela)
- Medidas precisas (3D quando disponível)
- Descarte de drenagem venosa pulmonar anômala
- Apêndice atrial esquerdo (AAE): descartar trombo, especialmente em pacientes com FA
- Função das válvulas AV
Cateterismo direito + teste com vasodilatador
Indicado em todo adulto com hipertensão pulmonar suspeita ao ETT (PSAP estimada > 40 mmHg) ou em pacientes com fatores de risco para hipertensão pulmonar fixa (idade avançada, longa evolução, dispneia desproporcional).
- Medir: PAP média, PCP, RVP basal, Qp:Qs
- Teste de reatividade com NO inalado, oxigênio ou epoprostenol
- Critérios de operabilidade (consenso): RVP < 5 WU em repouso ou redução significativa após vasodilatador
Avaliação adicional em pacientes selecionados
- Coronariografia em pacientes > 40-45 anos antes do procedimento eletivo
- Holter 24h em pacientes com palpitações ou suspeita de FA paroxística
- Avaliação neurológica em casos de embolia paradoxal (TC/RNM crânio, doppler de carótidas)
- Função pulmonar em pacientes com dispneia desproporcional
Tipos anatômicos de CIA — abordagens disponíveis
Avaliação das bordas (rims) ao ETE
Borda ≥ 5 mm = adequada. Borda 1-5 mm = deficiente. Borda < 1 mm = ausente. Em adultos, a borda aórtica deficiente é frequente (40-50%) e o septum aneurismático é comum.
| Borda | Janela ETE | O que avaliar |
|---|---|---|
| Aórtica (anterossuperior) | Eixo curto da válvula aórtica (30-60°) | Distância da margem do defeito até a parede da aorta. Deficiência aumenta o risco de erosão. |
| Posterossuperior (VCS) | Bicaval (90-110°) | Distância até a embocadura da veia cava superior |
| Posteroinferior (VCI) | Bicaval (90-110°) | Distância até a embocadura da veia cava inferior |
| AV (atrioventricular) | 4 câmaras (0°) | Distância até a inserção das válvulas mitral e tricúspide |
| Posterior (atrial) | Eixo curto / 4 câmaras | Distância até a parede atrial posterior |
Dispositivos disponíveis
Em nossa rotina utilizamos duas próteses em adultos:
| Dispositivo | Características | Tamanhos |
|---|---|---|
| Amplatzer Septal Occluder (ASO) Abbott |
Auto-expansível, dois discos de nitinol unidos por uma cintura central, preenchido com poliéster. Padrão histórico de referência. Mais robusto em CIAs grandes e septum espesso. | Cintura: 4-38 mm (passos de 1-2 mm) |
| GORE Cardioform Septal Occluder (GSO) W. L. Gore & Associates |
Estrutura de nitinol em filamentos, totalmente recoberta por ePTFE. Perfil mais baixo, maior conformabilidade ao septo. Recolocável e re-inserível antes da liberação. Em adultos, especialmente útil em CIAs com septum aneurismático ou borda aórtica deficiente. | 27, 32, 37, 44, 48, 60 mm (diâmetro do disco) |
- ASO: primeira escolha em CIAs ostium secundum com bordas adequadas. Único disponível para defeitos > 30 mm com cintura de até 38 mm.
- GORE Cardioform: preferido em CIAs com borda aórtica deficiente, septum aneurismático, CIA dinâmica ou em pacientes com maior risco de erosão.
Seleção do tamanho do dispositivo
Em adultos, a dimensão do AE raramente é fator limitante (átrios habitualmente acima de 35-40 mm), exceto em pacientes idosos com remodelamento desfavorável ou com átrio esquerdo pequeno por outras causas. O foco é o diâmetro estirado do defeito e o balanço entre oclusão e risco de erosão.
1) Sizing balloon (stop-flow)
- Insuflação lenta até cessação do shunt ao Doppler color (ETE/ICE)
- Medida do diâmetro da cintura formada pelo balão (em ETE/ICE e fluoroscopia)
- Em CIAs simples com bordas adequadas e ECO 3D detalhado, pode ser dispensado
2) Regra de oversize
- +1 a +2 mm sobre o diâmetro estirado em CIAs simples
- Equivalente a +20% sobre o diâmetro estático ao ETE
- Em CIAs com septum aneurismático ou borda aórtica ausente, evitar oversize agressivo (preferir Cardioform ou aceitar até no máximo +25%)
3) Avaliação especial em idosos / cardiopatia esquerda
No adulto idoso ou com disfunção diastólica de VE, considerar teste de oclusão temporária antes da liberação definitiva, com medida de PCP basal e durante o teste.
- Aumento da PCP > 18 mmHg ou > 10 mmHg sobre o basal sob oclusão → considerar:
- Otimização clínica prévia (diuréticos, controle de PA) e nova tentativa
- Dispositivo fenestrado (ASO com fenestração)
- Adiar ou contraindicar o fechamento
Procedimento — adulto ▼
Modalidade anestésica e guia de imagem
- Sedação consciente + ICE (ECO intracardíaco): preferido em adultos colaborativos — dispensa anestesia geral, permite alta precoce
- Anestesia geral + ETE: alternativa quando ICE indisponível ou em pacientes não colaborativos / anatomia complexa
Etapas
- Acesso femoral venoso (8-14 F conforme dispositivo)
- Heparinização 80-100 UI/kg (TCA alvo > 250 s)
- Atravessar a CIA com cateter MP/Wedge guiado por fio até veia pulmonar superior esquerda
- ICE/ETE: confirmar anatomia, descartar trombos, medir defeito
- Sizing balloon (técnica stop-flow) — opcional em CIAs simples
- Liberação do dispositivo — disco esquerdo no AE, retração sobre o septo, abertura do disco direito no AD
- Tug test (push-pull) — confirmar estabilidade e ausência de prolapso
- ICE/ETE final: confirmar oclusão, descartar shunt residual significativo, descartar derrame pericárdico, avaliar válvulas AV
- Liberação definitiva e remoção do sistema de entrega
- Hemostasia femoral (compressão manual ou Z-stitch / dispositivo de fechamento)
Cuidados pós-procedimento
- Observação em unidade de cuidados intermediários ou internação simples por 24h
- Monitorização cardíaca contínua nas primeiras 24h (atenção a arritmias e BAV)
- ECO transtorácico em 24h — confirmar posição, ausência de derrame pericárdico, descartar shunt residual significativo
- ECG e Rx de tórax antes da alta
- Repouso no leito por 4-6h, depois mobilização progressiva
- AAS 100 mg/dia VO por 6 meses + Clopidogrel 75 mg/dia por 1-3 meses (DAPT em CIAs grandes ou Cardioform > 44 mm)
- Anticoagulação plena em vez de DAPT em pacientes com FA (warfarina ou DOAC) — manter conforme indicação por FA, indefinidamente
- Profilaxia de endocardite por 6 meses pós-procedimento
- Restrição de esportes de contato por 1 mês
- Alta hospitalar em 24-48h se sem complicações
Complicações principais
⚠️ Erosão cardíaca — complicação mais grave
Incidência ~0,1-0,3%, com mortalidade significativa se não reconhecida precocemente. Maioria dos relatos com ASO; relatos isolados com Cardioform.
Fisiopatologia
Atrito mecânico crônico do disco do dispositivo sobre o teto do átrio (junção AE/AD com a raiz aórtica) leva a erosão progressiva da parede atrial e/ou da raiz aórtica, evoluindo para perfuração e tamponamento cardíaco ou fístula aorto-atrial. A maioria dos casos surge nas primeiras 72 horas, mas há descrições até 5 anos pós-implante.
Fatores de risco
- Borda aórtica ausente ou deficiente — fator mais consistentemente associado
- Borda posterossuperior deficiente
- Defeito dinâmico (variação ≥ 50% no ciclo cardíaco)
- Septo malalinhado
- Oversize do dispositivo
- CIAs grandes (> 25-30 mm)
Apresentação clínica
- Dor torácica súbita visceral / "fisgada"
- Hipotensão / instabilidade hemodinâmica
- Sinais de tamponamento: distensão jugular, pulso paradoxal, abafamento de bulhas
- Síncope ou pré-síncope
- Derrame pericárdico ao ECO — sinal mais precoce
- Em fístula aorto-atrial: sopro contínuo novo, IC progressiva
suspeita de erosão
Manter vigilância e ECO seriado por 24-48h
(localizar perfuração, posição do dispositivo)
ECMO V-A se instabilidade refratária como ponte
Embolização do dispositivo
- Incidência: 0,5-1,5% em séries de adultos. Ocorre nas primeiras horas/dias pós-implante
- Fatores de risco: subdimensionamento, borda inadequada, septum aneurismático, técnica de liberação inadequada
- Localizações comuns: AD, AE, ventrículos, aorta descendente
- Prevenção: tug test rigoroso antes da liberação; confirmação ecocardiográfica de discos paralelos ao septo
embolização do dispositivo
OU instabilidade hemodinâmica súbita pós-liberação
Bolus volume + suporte hemodinâmico
(AD, VD, AP / AE, VE, aorta)
Resgate com snare/laço gooseneck pela ponta de microparafuso
Decidir entre novo dispositivo (maior) ou cirurgia eletiva
(retirada + fechamento cirúrgico da CIA)
ECMO se instabilidade refratária
Trombose sobre o dispositivo
- Incidência: < 1% com antiagregação adequada. Mais comum nos primeiros 3-6 meses, antes da endotelização completa
- Apresentação: assintomática (achado em ECO de seguimento) ou eventos embólicos sistêmicos (AVC, isquemia periférica)
- Fatores de risco: má aderência à DAPT, FA não anticoagulada, dispositivo grande, septum aneurismático, estado pró-trombótico (neoplasia, trombofilia)
trombose sobre o dispositivo
OU evento embólico sistêmico (AVC, isquemia)
Avaliar tamanho, mobilidade e localização do trombo
aderência à DAPT, FA, neoplasia, trombofilia
Heparina IV (TTPA 1,5-2x) → Warfarina (INR 2-3) ou DOAC
Manter por 3-6 meses ou até resolução
ECO seriado a cada 4 semanas
Manter AAS isolada até endotelização
Considerar cirurgia (extração + fechamento cirúrgico)
Discussão multidisciplinar urgente: anticoagulação prolongada vs cirurgia
cirurgia cardíaca (extração + fechamento)
Fibrilação atrial (FA)
- FA pré-existente (em até 50% após os 60 anos): manter anticoagulação conforme CHA₂DS₂-VASc, independentemente do fechamento
- FA de novo pós-procedimento: ocorre em 5-15% dos adultos, mais comum nas primeiras semanas; geralmente transitória
- Conduta: anticoagulação plena por pelo menos 4-6 semanas pós-FA, controle de frequência, considerar cardioversão se sustentada e sintomática
- Discutir ablação concomitante ou subsequente em pacientes selecionados (alguns serviços fazem ablação antes/durante o fechamento em casos de FA documentada)
Bloqueio AV (BAV)
- Incidência: 0,5-1%, geralmente transitório
- Conduta: conforme grau (1º grau e Mobitz I → observação; alto grau → corticoide, monitorização; persistente > 7-14 dias → marcapasso definitivo)
Edema agudo de pulmão pós-fechamento (em adultos com disfunção diastólica)
- Apresentação típica: dispneia, hipoxemia, congestão pulmonar nas primeiras horas/dias após o fechamento
- Conduta: diuréticos IV, vasodilatadores, suporte ventilatório (CPAP/VNI), otimização de PA
- Prevenção: teste de oclusão prévio, otimização clínica, considerar dispositivo fenestrado em pacientes de alto risco
Shunt residual
- Pequenos shunts são frequentes nas primeiras semanas, com fechamento progressivo
- Shunt significativo persistente > 6-12 meses com sobrecarga de cavidades direitas: avaliar implante de segundo dispositivo
Complicações de acesso vascular
Hematoma, pseudoaneurisma, fístula arteriovenosa — manejo padrão de complicações vasculares de cateterismo. Sangramento mais comum em pacientes anticoagulados (FA, trombose).
Seguimento ambulatorial
| Tempo | Avaliação |
|---|---|
| 24h pós-procedimento (alta) | ECO transtorácico, ECG, Rx de tórax — atenção a derrame pericárdico |
| 1 semana | ECO + consulta — vigilância para derrame pericárdico tardio (erosão precoce) |
| 1 mês | Consulta + ECO — confirmar posição, oclusão, ausência de derrame; rastrear FA com ECG |
| 6 meses | Consulta + ECO — confirmar oclusão completa, regressão da sobrecarga de cavidades direitas, reavaliar PSAP. Suspender DAPT; manter AAS isolada se mantida indicação. Liberar profilaxia ATB. |
| 1 ano | Consulta + ECO — em pacientes com hipertensão pulmonar pré-procedimento, reavaliar; considerar alta cardiológica de rotina se evolução favorável |
| Anos seguintes | Anual nos primeiros 3-5 anos. Atenção a FA tardia, regressão das cavidades direitas e PSAP. |
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